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Artigo

Ajustamento Criativo e Hierarquia de Valores e Necessidades

Loeci Maria Pagano Galli
Psicóloga – Gestalt-terapeuta
CRP – 07/00404

Pressupondo que os homens antigos, e até mesmo os pré-históricos, se preocupassem com que sua prole aprendesse no convívio com o grupo, e na intimidade com a mãe, os aspectos fundamentais da alimentação, podemos imaginar que o ser humano primitivo tivesse como certeza que o objeto fundamental da aprendizagem fosse aprender a comer.
 

Os posteriores prolongamentos da aprendizagem, pelo contato com outros indivíduos, passaria a ensinar outras habilidades e competências: teriam que ser internalizados certos regramentos morais que definiriam o comportamento das crianças em relação a ela e aos outros. Começou então a surgir um modo de produção de Cultura, tanto do ponto de vista moral como do ponto de vista técnico. A formação teria, como elementos centrais, relação com valores culturais da sociedade. No tocante à sociedade, o indivíduo deveria aprender regras em seu comportamento social: com relação à Cultura, deveria aprender a interpretar o universo simbólico que passaria a reger a sua vida e seu convívio no desenvolvimento de sua personalidade. Desenvolveria, em suma, capacidade de mover-se na cultura e na sociedade com integração, de tal forma a constituir sua identidade.

 

Para Perls (1997), os sistemas de ajustamentos são conservativos e acompanham o organismo por uma longa história filogenética. São herdados, mas também estão em relação com o ambiente: são os contatos na fronteira, no campo organismo/ambiente, e nenhum ajustamento seria possível somente por meio da auto-regulação herdada e conservativa: o contato tem de ser uma transformação criativa.

Hoje, nas sociedades ditas evoluídas, prepondera um desenvolvimento da produção de riqueza, onde se estabeleceu definitivamente como um valor a busca de lucro e consequente competitividade. Parece que o desenvolvimento do lado competitivo, implicou na redução de aspectos da moralidade: é como se no progresso da espécie humana tivesse invertido o que antes era hegemonia da moral sobre a técnica, hoje é hegemonia da técnica sobre a moral. Qualquer que seja o modo como a humanidade evoluiu, em certo momento, o humano sobrepôs-se ao reino animal.


Aceitando que, em algum momento do passado, a relação com o outro era pura afirmação do ser, podemos imaginar o surgimento da solidariedade, anterior ou simultânea ao aspecto competitivo do ser humano, mas nunca secundário em relação a ele. Onde o educar no sentido amplo, significa uma afirmação do ser, o gesto fundamental será ir ao encontro. Este seria o movimento de afirmação recíproca em que a descoberta de um ser humano pelo outro se constitui a partir de um acontecer, que
poderá tomar a forma de um deixar ser, de um receber ou de um dar-se.

 

A civilização ocidental, para livrar-se da inospitabilidade do mundo, procurou construir uma forma ideal de como viver: criam-se, então, fenômenos que não são compatíveis com as leis da natureza, e, por isso a ciência busca o conhecimento e o controle do mundo, afastando-se muitas vezes do sentido da vida.

 

O mundo vivido é constituído a partir do universo de significações, já anteriormente dado para toda a atividade significativa do ser humano.

 

A psicologia precisa estar em diálogo com o mundo vivido, o mundo vivido tal como o encontramos na experiência cotidiana, o mundo como cenário de todas as atividades humanas. Mundo vivido é o primeiro mundo que todos viemos a conhecer, simplesmente por termos nascido seres humanos. Ele é o fenômeno da base para qualquer das atividades, inclusive a ciência. A prioridade do mundo vivido reside em sua fenomenalidade.

 

Há um chão criado por algo que aconteceu que foi vivido, mas que é apenas condição de possibilidade de todas as experiências; de onde surgem os significados, as significações.

 

Podemos perguntar: qual a matriz da significabilidade? Como o homem gera o sentido que depois irá coagular-se em estruturas econômicas, políticas, jurídicas, sociais, educacionais, matrimoniais etc? É um espaço que não se explica, mas que é chamado mundo da vida ou ser-no-mundo. A matriz da significância está na existência concreta, no fato de sermos; por isso, nenhum de nós se encontra desligado desta matriz, e é a partir dela que cada um é capaz de significar e dar significado.


Em tempos fragmentados, como o que vivemos hoje, não se pode mais oferecer verdades, mas apenas mostrar a fragilidade e a desconstrução inerente às estruturas de nosso tempo, seja na Psicologia, na Filosofia, na Política, nas relações sociais e outras.

 

O autêntico pensar está longe de arvorar-se senhor da verdade. No espaçamento do ser-com, segundo Heidegger (1997) reside o fato de o Dasein (palavra que significa existência humana) ser cotidiano com os outros, estar sob a tutela dos outros. Não se pode determinar quem são esses outros, a este fenômeno ele chamou “a gente”, seria um caráter existencial que se move faticamente (uma categoria antropológico-existencial) na mediocridade do que deve ser, do que se aceita, do que se rechaça, daquilo que se concede ou se nega o êxito. O “a gente” está em toda parte, porém, de tal maneira que já sempre escapou de onde a existência precisa tomar uma decisão. Exatamente pela razão do “a gente” apresentar todos os julgamentos e decisões como propriedade sua, ele priva cada ser-aí de sua própria responsabilidade pessoal.


“A gente” pode responsabilizar-se por tudo com grande facilidade, porque não há ninguém que deva responder por algo. Assim, mantém seu tenaz domínio, mas esta força e este domínio podem variar historicamente. Nestes termos o universo do “a gente” é um educador.

 

As escolas, as igrejas, os meios de comunicação de massa, os núcleos de serviço social, os centros de tratamento psiquiátricos, são aqueles organismos que o “a gente” reconhece como encarregados “públicos” daquilo que podemos chamar educação em suas especificações. Isso quer significar que o educar encontra seu fundamento no inautêntico. O sujeito da existência cotidiana é o impessoal, pois a todo momento ele me dita o que devo fazer ou ser.

 

O fenômeno “a gente” me liberta do peso da minha própria existência e fornece o prêmio para a minha submissão, segurança e tranquilidade. Ser no modo do “a gente” é apenas um dos modos, embora o mais básico possível para o homem. Heidegger (1997) ao mesmo tempo em que nos fala da inautenticidade do modo de ser cotidiano, nos fala também da possibilidade da autenticidade, como uma modificação existencial de ser nele, apesar e a partir dele.

 

Nossa civilização inclui regras da sociedade, crenças, religiões, diferenças culturais e formas de ser, um sistema hierárquico de valores, símbolos que orientam as vidas humanas. Aprendemos a entender formas de agir que a sociedade espera: são tantas regras que, desde quando uma criança nasce, começamos a atrair sua atenção apresentando-lhe regras de conduta, através da repetição aprendemos tudo o que pensamos que sabemos.
Quando a criança faz o que o adulto quer, recebe elogios, caso contrário provavelmente será punida de uma forma ou de outra: assim, a criança desenvolve necessidade de captar a atenção das pessoas atendendo suas expectativas e com isto obter atenção, amor. A sensação é boa, mas aprendemos a fazer o que os outros querem, apenas para agradar e esquecemos que fizemos isso. Tornamo-nos cópias das crenças que nos apresentaram.

 

Segundo Maturana (2001), a aceitação e respeito pelo outro está no centro do amor como fundamento biológico do social, e esta harmonia social não surge da busca de perfeição, mas sim de estar-se disposto a reconhecer-se como fenômeno social humano.

 

O olhar para o outro nos faz compreender que não somos nunca inteiramente puros. Não temos que escolher entre o indivíduo e a sociedade, entre ficar só e ficar junto, mas exatamente temos de manter atenção entre estar, ao mesmo e único instante, separados e juntos, de estar sempre de maneira mais profunda em diálogo, pois não existe separação entre dentro e o fora: o fora não está só fora e o dentro não está só dentro, o fora está dentro e o dentro está fora.

 

Coisa alguma é verdadeira em si mesma, mas veracizada mediante uma referência, um critério, algo que venha de fora dela mesma e a autorize a ser o que é e como é. As sensações e emoções estão sujeitas às mesmas regras. Aquilo que um indivíduo sente só chega a ser sentimento, medo, vergonha, felicidade, amor, raiva quando confirmado como tal, pelo testemunho dos outros. Nossa sociedade referenda que várias sensações, por exemplo: tremor, suor frio nas mãos, boca seca, amolecimento muscular, podem ser entendidos como “pânico”. Uma emoção considerada indigna como a inveja, é dificilmente reconhecida pelo individuo como um sentimento seu porque é desprezada socialmente.


É o que a sociedade vem fazendo com a pobreza, loucura, homossexualismo, são verdades atribuídas. A loucura é banida porque não é uma forma de ser/pensar o mundo sob o modelo racional, cientificamente postulado.

 

Para Morin (2000), “A maior contribuição de conhecimento do século XX foi o conhecimento dos limites do conhecimento” e de que a ciência não tem precisão cientifica. Conhecer e pensar não é chegar a uma verdade absolutamente certa, mas dialogar com a incerteza. A explicação é necessária à compreensão intelectual ou objetiva, mas é insuficiente para a compreensão humana. Há, no entanto um conhecimento que é compreensível e está fundado na comunicação e na empatia-simpatia-intersubjetivas.


Assim compreendo no outro, as lagrimas, o sorriso, o riso, o medo, a cólera por minha capacidade de experimentar os mesmos sentimentos que ele. Se vejo uma criança em prantos vou compreendê-la não pela medição do grau de salinidade de suas lagrimas, mas por identificá-la comigo e identificar-me com ela. A compreensão intersubjetiva necessita de abertura e generosidade.

As relações sociais como a dependência, a comunicação, a imitação, o
amor-objetal, são originais em qualquer campo humano, muito
anteriores ao fato de reconhecermo-nos como pessoas idiossincráticas
Ou de identificarmos os outros como constituindo a sociedade. A
personalidade é uma estrutura criada a partir de semelhantes
relacionamentos interpessoais primitivos; e em sua formação
geralmente já houve a incorporação de uma quantidade enorme de
material alheio, inassimilado ou mesmo inassimilável (e isto,
naturalmente, torna os conflitos posteriores entre o indivíduo e a
sociedade muito mais insolúveis). (PERLS, 1997, pág. 129).

Na dialógica entre o indivíduo e a sociedade, as pressões sociais não deformam a auto regulação organísmica, que não é por natureza antissocial, quando é compreendida de maneira adequada e expressa com palavras aceitáveis. A sociedade proíbe o que lhe é destrutivo. Não existe, segundo Perls, um erro semântico, mas um conflito genuíno. Para Latner (1994), o organismo é um sistema aberto em contato consigo mesmo e aberto ao meio, está implícito a ideia de que os organismos têm consciência para buscar seu próprio equilíbrio. Porém, se o apoio ambiente é escasso, o organismo não tendo atendido sua necessidade, fará ajustes criativos.

 

Para o organismo, antes que se possa denominá-lo, de algum modo, uma personalidade e, na própria formação da personalidade, os fatores sociais são essenciais. Não podemos, no entanto, pensar em organismo antissocial, oposto a natureza social, mas sim em dificuldades de desenvolvimento pessoal, de crescimento, de realização da totalidade de nossa natureza.

É preciso estar atento ao meio, como formador do homem e no qual ele esta imerso, nosso comportamento é determinado por nossas atitudes em relação à vida: como me vejo, como vejo as pessoas ao meu redor, como penso que as pessoas me veem. Nossa autoestima tem influência crucial sobre nosso comportamento, sobre nosso nível de desempenho e relações com os demais.

 

A Gestalt-terapia fenomenológica é um pensamento provocado pelo descompasso de uma civilização, pelo seu esgotamento, pelo esvaziamento, pela modificação do sentido em que ser nela se faz possível e solicitante.

Quando o ser é compreendido na sua impermanência, no seu aparecer/desaparecer, é a existência humana mesma, entendida como coexistência (singularidade e pluralidade), em seus modos de ser no mundo. O indivíduo pode ser entendido como uma pequena partícula da vida, mas ao mesmo tempo carrega a plenitude da realidade viva – a existência, o ser, a atividade – e, assim contém o todo da vida sem deixar de ser uma unidade elementar da mesma. É singular com as características do todo. O homem é plural. Os outros não são aqueles com quem o indivíduo convive, nem aqueles que o completam, os outros o constituem.


Sem o outro o indivíduo não é; nascemos como indivíduos exclusivos em relação aos outros. Somos singulares, mas esta singularidade não significa uma separação, uma cisão entre o eu e o outro, porque também os outros me constituem. Pluralidade e singularidade são modalidades cooriginárias, através dos quais a vida é dada a cada um de nós. Nunca estamos acabados como algo presente, mas abertos para o futuro. Cada homem está sempre nascendo e se reiniciando a cada instante, construindo uma teia de relações humanas, que por mais desejada ou idealizada, em sua forma final, ela é sempre imprevisível.

O mundo vivido é para ser o lugar originário da experiência, sendo porem um não- lugar. A experiência tem que se dar a partir desse lugar, desse aí, sem, no entanto fazer desse mundo vivido uma experiência, pois o mundo vivido é sempre o mundo vivido de cada um singularmente considerado.

 

Quando uma experiência cotidiana não se enquadra com nossas vivências, procuramos acomodá-la para que ela não nos incomode. Quando localizamos certa experiência no campo do nosso psiquismo imanente, estamos pressupondo que seja capaz de recebê-la e por isso mesmo seja anterior ou distinto do conjunto de experiências pelas quais passamos e que, de certa maneira não seja possível ser experimentado. Outras experiências são acomodadas. Não podemos falar deste não lugar sem possuirmos maneiras de torná-lo acessível a nós.


Como ser humano posso me adaptar e aprender a tornar confortável o desconforto, tornar natural o não natural. Porém desapegar-se não é fácil, pois como posso ter certeza de que continuarei existindo independendo do papel que me impus?


O dar-se conta só pode ocorrer se for permitido um ambiente de confiança mútua, de não-julgamento, de não-projeto de saúde e com permissão para explorar seus aspectos esquecidos que lhe causam sofrimento e interromperam seu desenvolvimento. O ajustamento criativo foi um esforço que a pessoa fez para se auto proteger. Olhamos para o futuro sem ver o presente, ficamos fora do contato presente e não captamos o que está acontecendo. Vivemos de nossas recordações, nos enredando nelas. Não percebemos que temos cometido um erro, o momento presente é distinto do passado.


Recordar nossas experiências passadas, comparando e julgando o presente em termos do passado, não é o mesmo de estar aberto à situação atual. Nada é novo, tudo se converte em uma modificação de um sucesso anterior ou em uma sombra de nossas preconcepções.

 

Nossas experiências são exemplos de regras da conduta humana: “fiz isso porque estava irritada”, a ação e a irritação adquirem uma posição de importância menor à explicação para ajustar nossa experiência ao ambiente. Precisamos muita coragem para questionar nossas próprias crenças. Nosso maior receio passa a ser o estar vivo, assumir o risco de viver e de expressar o que sentimos. Criamos uma imagem de seres perfeitos e não nos perdoamos por não sermos o que imaginamos e acreditamos que deveríamos ser.

 

A consciência não tem um dentro, ela é o fora de si mesmo, é um continuum de nosso relacionar, somos seres em processo e o interessante é buscar descobrir quem estamos podendo ser, ao invés de nos dizer quem devemos ser. Existe antes do dever, uma escolha.

 

No enfoque Gestáltico, evita-se a dicotomia entre consciência e inconsciência, o especular sobre o que não está presente. O que emerge neste momento é realmente o que sucede na interação entre passado e futuro, o mundo e o sujeito revelam-se reciprocamente. O mundo é criado de acordo com as necessidades da pessoa, é organizado à medida que vive. Tudo o que temos reprimido tenta sair, nossas
necessidades não são esquecidas, senão só a sua expressão. Cada uma das formas características que não se entra em contato com o resto do campo tem uma contrapartida, a confluência, a projeção, a introjeção e a retroflexão são resultantes do nosso contato com o meio.

 

Culpamo-nos ou culpamos os demais, nos humilhamos ou humilhamos os demais: alternativamente nos sentimos rancorosos ou culpados, as vezes virtuosos e as vezes pecadores. Damos voltas e mais voltas sem proveito e nem objetivo, pois nossas artimanhas nos conduzem à solução de nosso desespero. Todos os componentes da Gestalt em formação que nunca alcança uma resolução são criações de nossa zona intermediaria.


A Gestalt está escondida, porém é tão forte que aparece em forma de sintoma de nosso sistema desorganizado. Na terapia de Gestalt entendemos sintomas como intentos que aparecem para solucionar um problema interno grave e da melhor maneira possível, dada a consciência limitada de nossa situação. A consciência se desvanece, já não sabemos como estamos. Porém, em todas as formas nossa excitação está submetida. A necessidade de brigar, chorar, amar, foi detida por uma reação contraria a essa necessidade.

 

A musculatura contraída constantemente e em tensão conosco e com o ambiente já não se torna perigosa: converte-se em concha protetora. Ao contermo-nos não só detemos nosso funcionamento, mas a excitação não desaparece, a energia não se pode criar, nem destruir. A energia de nossa existência, ao ser impedida para passar a Gestalt seguinte, vai para alguma parte: ela está bloqueada e se transforma e é substituída por outras atividades, figuras substitutas. Figuras que podem ser inadequadas para satisfazer as necessidades que ocasionaram a figura original.


Com nossa consciência bloqueada e as energias diminuídas não podemos estar totalmente abertos para a nova situação: desta forma acumulamos emoções incompletas e interrompidas. Nossos problemas encobertos são os impulsores para obsessões tão frequentes, nossa intenção é dar um fim às figuras incompletas do passado. A Gestalt está escondida, porém é tão forte que aparece na forma de conduta sintomática.


Exemplos são vários, podemos citar alguns: uma pessoa que não tem permissão para escutar a necessidade de repouso de seu organismo porque traz lembranças de uma educação muito rígida e crítica do tipo “trabalhe muito!”, “não seja preguiçoso!”, terá dificuldade de ver uma pessoa relaxando, ou descansando, pois ela está lhe mostrando o tempo todo um comportamento que não se permite ter.
Uma pessoa que sentiu ter recebido pouco afeto na infância, provavelmente fará um ajuste criativo de proteger-se da dor deste sentimento, acreditando que não gosta de aproximar-se das pessoas e desenvolverá um padrão de relacionamento que acredita ser uma escolha. Na verdade, é uma escolha possível, mas só poderá modificar respeitando- se no modo como pôde se desenvolver, e só mudará depois de adquirir consciência se quiser e puder experimentar outras formas de contatar. Quem desenvolveu baixíssima auto-estima, ouvirá elogios como critica, pois sua audição só ficará aberta para ouvir críticas: assim, irá distorcer sua escuta. Podemos comparar o ser humano com uma planta que procura tirar da terra, do sol o que precisa para alimentar-se e sobreviver: desta forma, ao voltar-se para o sol, curva-se para sobreviver.


Se não estamos em contato com muitas de nossas possibilidades, não podemos satisfazer a nós mesmos, pois os ajustes que fazemos não refletem completamente nossas necessidades, a Gestalt está escondida, mas é tão forte que aparece de forma distorcida. Podemos entender conflitos interiores como conflitos entre a existência do organismo e o social com regras e normas de conduta aprendidas, as quais limitam nosso livre funcionamento.

 

Para uma criança sobreviver com os valores instituídos do mundo vivido e reproduzidos pelos pais de forma repetitiva e inautêntica, Alice Miller (1992) nos diz que a criança passa por uma longa luta interna: “o medo de perder a pessoa que ama ou permanecer fiel a si mesma”. Nessa luta para compreender a impropriedade da história, a criança nega a própria história: obedecer significa negar sua percepção.


A expectativa de receber a aceitação e o amor que lhe faltou em criança é, muitas vezes, transferida, na fase adulta, principalmente para os filhos, mas também outras pessoas. Na reprodução do comportamento semelhante aos pais no passado, aparecendo no presente/ausente, o adulto ainda busca confirmação que foi amado. Ainda para Alice Müller (2011) muitas vezes experiências reprimidas na infância são armazenadas no corpo e exercem influência no físico. Testes recentes com feto têm revelado que a criança aprende tanto gentileza, quanto crueldade desde sua concepção.

 

De acordo com Callegaro (2008), massagens de 15’ três vezes ao dia no bebê humano, dobra, em um ano, o volume do cérebro quando comparado com crianças que são privadas desse estímulo social. Pessoas cuja integridade não foi ferida na infância, que foram protegidas e tratadas de modo honesto pelos seus pais, tornam-se inteligentes, empáticas e altamente sensíveis. Não sentirão necessidade de matar ou machucar outras pessoas ou a si mesmas, porque aprenderam com sua própria experiência.

 

Toda a criança nasce para crescer, desenvolver-se, viver, amar e articular suas necessidades vitais e sentimentos para sua autoproteção. Mas quando estas necessidades são frustradas, uma ampla gama de diversos fatores ambientais pode gerar insegurança na criança: dominação direta ou indireta, indiferença, ausência de respeito pelas suas necessidades individuais, falta de orientação efetiva, atividades desdenhosas, exagero ou inexistência de atenção, responsabilidades excessivamente grandes ou muito reduzidas, superproteção, isolamento de outras crianças, injustiça, discriminação, promessas não cumpridas, ambiente hostil e assim sucessivamente.


Karen Horney (1964) nos diz: diante dessa hipocrisia que a criança capta de seu meio, o que se traduz pela sensação de que o amor dos pais, a honestidade, generosidade, solidariedade etc. não passam de impostura, e inquietada por tais condições perturbadoras, a criança entende este mundo como ameaçador, desenvolve então traços de caráter que se tornam parte de sua personalidade. A sensação que a criança tem é de estar sozinha e indefesa em um mundo potencialmente hostil.


Daumier (1995), nascido em 1808, caricaturista francês, dedicou-se a critica dos costumes, à observação sociológica e do cotidiano. Sua obra constitui uma visão da vida de sua época dos valores que muitas vezes permanecem até hoje. Nesta reprodução datada de 1848, podemos compreender o papel da criança na sociedade, que até pouco tempo, ou em algumas culturas ainda se mantém, da pouca importância dada as crianças em comparação ao mundo adulto.

Toda criança tem necessidades indispensáveis, entre as quais, de segurança, abrigo, proteção, contato, sinceridade, calor humano, carinho. Quando ela é deixada só, sem compreender essas faltas, sua escolha redunda em reprimir e duvidar de suas percepções.

O adulto quando tenta dissuadir a criança das suas percepções, a realidade permanecerá ofuscada e misturada a sentimento de culpa e vergonha, pois provavelmente duvidará de si mesma. A contradição, nos adultos, de seus atos, princípios morais e proibições, provocam na criança uma insuportável confusão, da qual ela busca se livrar pelo recalque. O adulto compõe sua compreensão do hoje com um sofrimento presente, que está representando o seu passado, garantindo assim que este passado fique reprimido.

Quando podemos trocar nossa posição no modo de buscar o que precisamos para o nosso organismo, deixamos de ser vítimas da circunstância, temos assim algum controle sobre os componentes de nosso desenvolvimento mais saudável. Podemos manter a consciência da vida tal como a vivemos, mesmo em situações mais deploráveis temos esta possibilidade.

De acordo com o ponto de vista da Gestalt-terapia, estamos saudáveis ao nos darmos conta desta possibilidade: não se tem o objetivo de ser sempre feliz ou bem alimentado, mas de estar em contato com toda nossa vida tal como a vivemos. Contatar constitui a formação de uma Gestalt, afastar-se representa seu fechamento. Diante de qualquer perturbação, o indivíduo encontra-se frente a um aglomerado de gestalten, que estão de alguma forma inacabadas, nem plenamente formadas e nem plenamente fechadas.

Perls (1982) sugeriu que as pistas para este ritmo de contato e afastamento são ditadas por uma hierarquia de necessidades. As necessidades dominantes emergem como primeiro plano; ou figura contra o fundo, o princípio da hierarquia de necessidades está sempre operando na pessoa. A necessidade mais urgente, a situação inacabada mais importante sempre emerge se a pessoa estiver consciente da experiência de si mesma a todo o momento.

Qualquer distúrbio do equilíbrio organísmico constitui uma Gestalt incompleta, uma situação inacabada, forçando o organismo a tornar-se criativo, a achar meios de restabelecer seu equilíbrio. Goldstein (1961), afirmou que o organismo se organiza em função de dois princípios: o de satisfazer suas necessidades e o de crescer, buscando sua nutrição. Uma tendência básica do organismo é a atualização de si mesmo, segundo suas potencialidades. O organismo se expressa ora como fundo, ora como figura, e esta noção refere-se ao processo motivacional e comportamental pelo qual o organismo seleciona, no meio, o que necessita para sua conservação.

Entre as necessidades básicas estão o alimentar-se, o respirar, receber afeto, e sem o meio ambiente não satisfazemos estas necessidades. Só quando o indivíduo puder extrair do meio o que precisa para sobreviver, sentir-se-a confortável, será capaz de viver tanto no nível biológico como psicológico.

A Gestalt-terapia não investiga o passado com a finalidade de buscar traumas ou situações inacabadas, mas convida a pessoa simplesmente a se concentrar para tornar-se consciente de sua experiência presente, pressupondo que os fragmentos de situações inacabadas e problemas não resolvidos do passado apareçam como parte desta experiência presente. A emoção é vista como força que fornece energia a toda ação. Emoções são as expressões de nossa excitação básica, as vias e modos de expressar nossas escolhas, assim como de satisfazer nossas necessidades.

Para Latner (1973); se temos consciência sobre nossa existência, do mundo vivido, do meio e do fluxo e refluxo do funcionamento da Gestalt, ocorre uma melhor forma de organizar o campo. No interior de cada um de nós se encontra a semente de nosso potencial; ao crescer, nos desenvolvemos de acordo com nossas possibilidades. Sempre temos a alternativa de manter a consciência da vida tal como a vivemos. Em Gestalt-terapia estamos sadios enquanto mantivermos contato com essa possibilidade. Com esta perspectiva, a satisfação não procede de ser feliz, de estar bem alimentado, senão de estar em contato com toda nossa vida tal como a vivemos.

O vivido é pleno de esperanças, mas seu domínio sobre nós nunca é completo, pois mantemos conosco a liberdade. Diante de valores distorcidos, sempre travamos; nossas demandas e as demandas do ambiente entram em desacordo.

No modo de descrever de Perls, Goodman e Hefferline(1997), a destruição como parte da formação figura/fundo, o processo de ajustamento criativo a novos materiais e circunstâncias compreende sempre uma fase de agressão e destruição, porque é abordando, apoderando-se de velhas estruturas, e alterando-as, que o dessemelhante torna-se semelhante.

Interesses que se mantêm ocultos ou invisíveis em cada indivíduo e em cada aspecto da sociedade são obstáculos à investigação do eu; por isso o homem tem atribuído há muito tempo a causa de seu sofrimento só ás circunstâncias externas.

A percepção humana não é animal porque tem um pano de fundo: já nasce viciada. O animal é pobre de mundo e o homem é formador de mundo. Na própria dimensão humana sempre tem o percebido. Merleau-Ponty (1969), vai chamar de fundo sem o qual o percebido não acontece. O ser humano desde sempre percebe com consciência do já aprendido. Nenhuma percepção é apenas objetivável; no ser humano tem a presença existencial. Não se pode obter uma síntese entre percepção, mente e cérebro, pois elas andam paralelas, infinitamente.

Heidegger (1997), fala da facticidade da vida como a base de todo o conhecimento; é o conhecer por familiaridade, não é ideal, nem realista: o conhecimento se faz por semelhança. A experiência humana nunca é pura; intuição para Heidegger é a vida fática, passando pela facticidade para ser transcendental. Há um elemento transcendente na consciência, e, sem ele, não se poderia falar em consciência. E, também um elemento transcendente na linguagem. Pôr a vida ser fática, ela já sempre tem um elemento hermenêutico. Ainda este filósofo afirma que o homem se compreende enquanto compreende o ser. Compreende o ser quando compreende a si mesmo. Há uma circularidade, quer dizer, o compreender a si mesmo será o universo apofântico (logos da compreensão e da linguagem), e o compreender do ser, seria o universo hermenêutico.

Podemos dizer que estamos ligados a este mundo porque não compreendemos nada sem ele e é aí que podemos dizer que este mundo se constitui na medida em que nos compreendemos enquanto somos. O homem que se compreende enquanto é, já sempre se compreende neste mundo, tendo de cuidar de si no mundo.

Este ser-no-mundo precisa de uma estrutura que possua a marca fundamental da condição humana, e, esta estrutura, seria, para Heidegger, o “cuidado”, (cura). Daí a tríplice estrutura do cuidado: o ser-adiante-de-si-mesmo (futuro) existência, o já-ser-em (passado) facticidade, o ser-junto-às-coisas (presente) decaída.

O ser do ser-no-mundo é o cuidado, o horizonte onde aparece o cuidado é a temporalidade; trata-se de descrever fenomenologicamente a compreensão do ser. A construção do eu transcendental é sustentada por um eu histórico, por um eu fático, que lhe dá uma característica diferente, o que faz com que a compreensão do ser seja a sua história do ser, esta história é também a história do esquecimento do ser.

Compreender plenamente algo não é pleno, porque lidamos com uma
carga histórica que nos limita. Nossa limitação do compreender é
trazida por uma história da qual não conseguimos dar conta nem como
indivíduos, nem como grupos. Sempre chegamos tarde. Só depois que
somos fato concreto, determinado pela história, pela cultura, é que, a
partir daí compreendemos, logo nosso compreender nunca é
transparência.

(Heidegger apud Stein, 1996, p. 63)

Quando compreendo algo, compreendo também que sobra muito mais do que eu compreendi, que ainda não compreendi. O homem existe cuidando do seu existir, este é o seu ser, seu modo de ser prioritário entre todos os outros. Cuidando do existir, o homem, então, toma para seu cuidado tudo o que pertence à existência: o mundo, as coisas do mundo, os outros homens, a si mesmo.


Aprender a ser quem nós mesmos estamos podendo ser é um acontecimento que se abre como uma compreensão, como um dar-se conta de que nos tornamos o que outros (quaisquer outros) quiseram ou determinaram que fossemos. Dar-se conta desta impessoalidade, abre-se diante de nós uma possibilidade peculiar que só a cada um de nós pertence. Compreendemos que “quem” propriamente nós podemos vir-a-ser, ainda não somos, embora também não sejamos mais aquele “quem” impróprio como nos reconhecíamos.


Neste momento de reflexão sobre todos os ajustes criativos que precisamos fazer, no passado e que se manifestam no presente, a vida vivida cai num vazio. A este vazio Perls chamou de vazio fértil. Este vazio revela, pela sua ausência, o sentido que a vida vivida tinha, revela, em nome de que viver e ser, como se era e acontecia, pois a vida vivida e absorvida nas significações é toda compreensível em seus pormenores e detalhes, nunca vazia de sentido, ao contrário, plena dele.


Quando o vazio comparece diante de nós, somos capazes de perceber o existir na sua mais genuína compreensão: de como o quem/eu estava envolvido, dominado, absorvido numa série de circunstâncias, de necessidades, de ocasiões, de acasos, de mal- entendidos, de equívocos..., então o eu mesmo não é vítima dos outros: o indivíduo se vê ou pode se ver como agente ou coagente de seus desvios e equívocos.


A necessidade sentida é a de recuperar um sentido (novo) para ser. A necessidade de reconstruir novas ligações com o mundo e com os outros, essa experiência de vazio, esta compreensão da falta de sentido que o mundo nos traz, é o que Heidegger (1997) chama de angustia. Não é tristeza, nem ansiedade, nem medo, embora possamos responder a ela com tristeza, ansiedade, medo, é apenas uma compreensão de que nos falta mundo (rede de relações significativas), nos falta nosso próprio ser. Com esta clareza perdemos neste momento a ilusão de que é o outro que nos pode dizer e dirigir para ser quem estamos podendo ser ou como devemos ser.


Quem o eu está sendo, só ele mesmo pode saber, dizer, realizar, pois ninguém pode viver por ele sua vida, assim como ele não pode ser ninguém que não ele mesmo.

 

Este vir-a-ser abre-se como um mistério da vida se revelando; é não ficar a mercê da sorte ou do azar, é não querer mais ser como estava sendo, como estava cuidando das coisas, do mundo.

 

O eu pode apropriar-se de seu poder ser, quem propriamente pode ser, reiterando, refazendo escolhas anteriores que só através da experiência da angustia pode perceber que são impróprias. Porém, a realização desta sua possibilidade só pode efetivar-se, objetivar-se, religando-a à teia da impessoalidade de seu ser-no-mundo, pois só através dela ele pode se comunicar com os outros. A inospitabilidade do mundo representa à essencial e originaria liberdade de ser que só pertence ao ser.


A fenomenologia existencial, base filosófica da Gestalt-terapia, é um olhar que distingue e vê além do impessoal, ela conta com a perspectiva da singularidade como elemento distintivo em que o homem não é apenas um sujeito epistêmico, mas um existencial, realizador de cuidados. O homem em sua singularidade pode entender e respeitar o modo como cada um pode cuidar de ser si mesmo, mesmo sendo plural.

 

Segundo Chauí (2012), os condicionamentos não são obstáculos à liberdade, mas sim um meio pelo qual ela pode se exercer.

 

Para um Gestalt-terapeuta o olhar fenomenológico só empreende desvelamentos. Desvelamentos cuja paragem é o inaudito, que exige daquele que olha a coragem da aventura. Se pensarmos a Gestalt-terapia acompanhando nossos ajustamentos criativos, lembramos de Perls (1893-1970), que descreveu a Gestalt-terapia como uma terapia existencial, utilizando-se de princípios em geral considerados existencialistas e fenomenológicos, ele sustentou que o encontro do terapeuta com um paciente constitui um encontro existencial entre duas pessoas, e não uma variante do clássico relacionamento médico-paciente.


A busca do terapeuta é oferecer a nós mesmos, e à outra pessoa a consideração, o respeito, a compreensão de nossas emoções, a proteção necessária e o amor incondicional que muitas vezes nos foi negado. Se a terapia for feita a propiciar o encontro, a criatividade interior pode ser reforçada, tanto para o terapeuta como para o paciente. É correr riscos sem a certeza da recompensa. Como estamos sempre nos constituindo uns com os outros, o terapeuta também é constituído pelo paciente.


Um Gestalt-terapeuta passa a ser um parceiro na construção do outro; esta visão quebra o que fomos ensinados como psicólogos: a seguir categorias, teorias, criação de significados, ajustes de comportamento dentro de um padrão de saúde, todos são aspectos importantes da experiência, mas não são a experiência em si, é um mapa da cidade, mas não a vida acontecendo.


A vida é sempre incerteza e mistério do que vai acontecer; cada passo em direção ao crescimento indica ansiedade em direção ao desconhecido. Abrir possibilidades para as pessoas de que elas podem se tornar responsáveis por suas experiências não se alcança com poucas sessões e nem com comprimidos: é uma obra de arte, conserva essencialmente a liberdade. O terapeuta fica aberto e dialogante para manifestações das possibilidades próprias do outro.

 

Na terapia de Gestalt prestamos atenção a como estamos realmente vivendo nossa vida, é uma investigação de como nos relacionamos com o mundo e como podemos nos relacionar mais de acordo com nossa natureza; é um estudo das maneiras de resolver os problemas ou fracassar em sua solução, cuja finalidade consiste em aumentar nossa compreensão acerca deles, e, posteriormente, permitir-se experimentar cuidadosamente outras formas de interagir com o meio para sentir-se mais satisfeito.


O propósito da terapia não consiste em solucionar os problemas de nossa vida, isto é assunto do viver. O objetivo é buscar consciência para enfrentar satisfatoriamente as circunstancias da vida. Descobrir recursos que permitam desenvolver novas soluções para enfrentar demandas de suas necessidades e do ambiente.


A essência da liberdade não está ligada à vontade ou a causalidade do querer humano, mas a liberdade administra o livre no sentido de despojado, do que saiu do oculto. Todo sair do oculto pertence a um liberar. A experiência humana da vida é, originariamente, a experiência da fluidez constante, da mutabilidade, da inospitabilidade do mundo, da liberdade; a segurança não está em parte alguma. E isto não é uma deficiência do existir como homens, mas, antes sua condição, quase como sua natureza.

 

É o sentido de-ser-no-mundo, como homens, cuidando expressamente de habitar o mundo e interagindo com os outros, o que provoca o pensar fenomenológico.


Às vezes é preciso coragem para buscar outras formas de pensar, de refletir os valores instituídos pela cultura. A dificuldade é encontrar um olhar que nos permita ser aquilo que estamos podendo ser, um olhar amoroso, que nos conduza a uma busca do nosso ser autêntico. O ser se revela como um modo de estar presente, um “encontro”.


Deixar acontecer as coisas, os eventos, as pessoas e a nós mesmo; é compreender que somos resultado do próprio modo de-ser-no-mundo e não resultado da reflexão. Não temos que escolher entre o indivíduo e a sociedade, entre ficar sós e/ou ficar juntos, mas, como já referimos temos de manter atenção entre estar ao mesmo e único instante separados e juntos, de estar de maneira mais profunda em diálogo.


Quem quer conhecer a si próprio tem que esclarecer a situação em que se encontra. Existindo, eu não estou simplesmente existente, mas preciso me existir; eu não apenas vivo, mas preciso conduzir a minha vida. Portanto, existir não é um estar presente, mas uma realização, um movimento, é o estar aware de si mesmo; isto significa ter consciência de que tudo que se presumia ser sólido, estabelecido, obrigatório, não passa de algo acomodado. É uma máscara no rosto, imposta pela interpretação pública, pelas opiniões, representações morais, atribuições de significados.


O mundo pode ser designado o “de onde”, o “onde” e o “para onde” do ser-aí. O ser-no-mundo é o já-ser-em, o ser-junto-dos-entes e o ser-diante-de-si-mesmo. Toda hermenêutica é deste modo, explicita ou implicitamente, uma compreensão de si mesmo através da compreensão dos outros, ela conduz a ideia da história do ser, da facticidade, que desde cedo nos conduz a um caminho que escapa à rememorização do passado, fica apenas no universo da presença do seu aqui e agora.


A pessoa mais livre não é aquela que está livre de tudo, mas a que está livre para tudo. Algumas atitudes humanas, sublimes advêm da rejeição do que a biologia ou a cultura impelem os indivíduos a fazer. Essas atitudes são a afirmação de um novo nível de existência, em que é possível inventar novos artefatos e criar modos mais justos de viver. A busca de uma percepção ampliada de nossos ajustes criativos se reflete numa qualidade de vida que procura harmonia com a natureza, tanto interior quanto exterior, ao invés do domínio sobre ela. A evolução de nossa consciência tem importância central para realização bem sucedida dos nossos compromissos humanos.

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