Artigo
Existência Coletiva
Loeci Maria Pagano Galli
Psicóloga – Gestalt-terapeuta
CRP – 07/00404
“Em todas as relações humanas, se as duas partes vivem próximas uma da outra, talvez formem um vínculo, pela confiança pessoal. Mas, se uma grande distância as separa, terão de usar palavras para comunicar sua lealdade, e as palavras devem ser transmitidas por alguém. Transmitir palavras que sejam ou agradáveis a ambas as partes ou próprias para enfurecer ambas as partes - eis uma das coisas mais difíceis do mundo. Quando ambas as partes se agradam, deve haver algum exagero quanto aos aspectos positivos, e quando ambas se enraivecem, deve haver algum exagero quanto aos aspectos negativos. Qualquer coisa que tenha laivos de exagero é irresponsável. Onde há irresponsabilidade, ninguém confia no que se diz e, quando isso acontece, o homem que transmite as palavras está em perigo. É por isso que o aforismo afirma: transmite os fatos confirmados; não transmitas afirmações exageradas. Se fizeres isso, é provável que te saias bem”
(TZU, 1964, p.63)
A existência coletiva determina quais as coisas que devem aparecer e se manter entre nós, até os preconceitos que partem de nós, podem a qualquer momento, serem reconhecidos como meros pontos de vista, que podem ser mudados ou anulados.
A aparência delirante de constante novidade que o mundo contemporâneo toma a cada dia, não é mais, no fundo, do que uma ânsia de eternização do momento, uma detenção do decorrer do tempo, já que o correr do tempo só existe propriamente enquanto portador do anúncio da novidade, é congênita a todo modelo civilizatório que desemboca no pós-modernismo.
A circulação dialógica passado, presente, futuro restaura a intensidade concreta do novo viver que é a plataforma giratória do presente. Como dizia Santo Agostinho: “Existem três tempos: o presente do passado, o presente do presente, e o presente do futuro”. As representações passadas ainda agem em mim agora, sem que elas me sejam presentes, como representações conscientes ou atuais.
A realidade compartilhada é construção de muitos, é campo em que existe a construção de todos.
O criador de um filme, de uma publicidade, só é criador na medida em que consegue captar o que circula na sociedade.
O cinema e a publicidade lidam, por exemplo, com arquétipos, isso significa que o criador deve estar em sintonia com o vivido. Portanto, as tecnologias do imaginário bebem em fontes imaginárias, para alimentar imaginários.
Cada sujeito está apto para ler o imaginário com certa autonomia, mas vê-se que o imaginário de um indivíduo é muito pouco individual, mas sobretudo grupal, comunitário, tribal, partilhado.
Organizamos o mundo de forma a ajustá-lo a nossas fixações, mas nunca ficamos satisfeitos, aparecem então emoções destrutivas como o temor, a ira, o ciúme, a depressão. Fervemos de raiva contra quem cruzar no nosso caminho, contorcemo-nos de ciúme daqueles que possuem o objeto de nosso anseio e caímos em depressão quando perdemos a esperança.
Todas estas fixações que nos passaram pela cultura, não são o que realmente necessitamos, nem o que desejamos. Esses pensamentos começam a perder o controle exercido sobre nós quando o identificamos. Então passamos a vê-los como são, simplesmente pensamentos.
Aumento de consciência é frequentemente o primeiro passo para a libertação, a transformação do mundo capitalista tal como o conhecemos passa por uma pedagogia da tolerância. A libertação da fixação resulta em um delicioso sentido da liberdade. Ficamos mais contentes, não ficamos indiferentes aos outros, mas mais interessados e solícitos. Aparecem motivos mais maduros como desejos de verdade e justiça, bondade e altruísmo. Dentro de nós encontramos nosso ser mais profundo. Não somos apenas mais do que imaginamos, mas sim mais do que podemos imaginar.
A violência onipresente hoje nas guerras, no terrorismo, nos confrontos urbanos, nos noticiários da mídia, nas produções culturais, não impedem de termos esperança, e dependem de nossa habilidade para reconhecer que o nosso bem estar e o bem estar dos outros é de fato o respeito a diversidade, que ao termos consciência, podemos repensar nossos conceitos e buscar a solidariedade.
O desconstrucionismo, movimento iniciado pela leitura de Martin Heidegger, por Derrida no final dos anos 60, surge como um poderoso estímulo para os modos de pensamento pós-modernos e de Edgar Morin, com o paradigma da complexidade, com Buber, a dialógica, movimentos intersubjetivos.
Por isso Heidegger nos alerta de quando o pensar vivo se congela naquilo que uma vez já se pensou, quando o passado triunfa sobre o presente e o futuro, quando o passado aprisiona o pensar.
TZU, Lao. Tao Te Ching. São Paulo: Penguin Books, 1964.